domingo, 26 de maio de 2013

Sustentabilidade: você faz, o planeta sente

Para garantir o bem-estar da humanidade, são necessárias novas maneiras de pensar e de agir. Dar o primeiro passo é essencial para que o mundo seja mais justo e o meio ambiente equilibrado. Você e a escola têm tudo a ver com isso

Beatriz Santomauro  

Você faz, o planeta sente. Ilustração Alessandra Kalko. Foto Aldré Spinola e Castro
O termo sustentabilidade tem se tornado cada vez mais popular, especialmente no mundo dos negócios. Você já viu anúncios em que empresas alardeiam medidas nesse campo procurando ser vistas como instituições preocupadas com nosso planeta, não é mesmo? Mas a questão é bem mais abrangente - e tem tudo a ver com você e com a Educação. Um dos preceitos básicos da sustentabilidade é a relação entre as coisas. As ações de cada um repercutem na família e, em cadeia, na escola, no bairro, na cidade, no país e no mundo. Não se deve ver isso como um peso nas mãos de cada indivíduo e nem uma responsabilidade do governo e de grandes corporações, mas considerar que cada um de nós é participante de um sistema e deve fazer o que estiver ao seu alcance para o equilíbrio dele. Como diz o físico austríaco Fritjof Capra, autor do livro O Ponto de Mutação (Ed. Cultrix, 432 págs., 52 reais) e fundador do Centro de Ecoalfabetização, nos Estados Unidos: "A sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas de uma teia completa de relacionamentos".

O termo começou a tomar forma em 1972, quando o economista polonês naturalizado francês Ignacy Sachs falou em ecodesenvolvimento. Já na década de 1980, o norte-americano Lester Brown, presidente do Worldwatch Institute (WWI), defendeu a importância de satisfazer às próprias necessidades sem reduzir as oportunidades das novas gerações. O tema ganhou maior repercussão, contudo, na Rio 92, a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, realizada no Rio de Janeiro.

Na época, vários segmentos da sociedade se pronunciaram a favor da ideia e pensavam em uma nova maneira de conduzir o desenvolvimento das nações, não só com o objetivo de melhorar o desempenho econômico mas também considerando que o planeta tem recursos naturais finitos. Para eles, qualquer atividade, seja de uma instituição, seja de uma pessoa, deveria respeitar três pilares: ser economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta.

Hoje, os especialistas indicam que não há um modelo único de desenvolvimento, mas que outros aspectos devem ser levados em conta, como o respeito às diversidades culturais, as políticas de longo prazo e a ética. Outro item pode ser acrescentado à lista: a mudança de atitude. "O redimensionamento dos princípios ou valores humanos é essencial para que mais pessoas vivam num ambiente harmônico e respeitoso", diz Andrée de Ridder Vieira, coordenadora geral do Instituto Supereco, em São Paulo.

As cinco escolas apresentadas nesta reportagem exemplificam bem essa diversidade ao implementar iniciativas relacionadas ao cuidado com crianças de creche e pré-escola, à resolução de conflitos, ao uso negociado do espaço, ao combate ao desperdício de merenda e à redução no valor da conta de energia elétrica. Embora elas tenham surgido em resposta a demandas específicas, os projetos resultaram em mudanças de atitude, com reflexos nos campos econômico e social, entre outros.

Professores e gestores tiveram a sensibilidade de observar a realidade, refletir sobre o que não estava funcionando bem e buscar uma solução - movimento que não termina nunca. Por isso, não basta organizar a coleta seletiva do lixo. É preciso pensar na relação entre as pessoas, compartilhar oportunidades de conhecimento e, sim, discutir sobre o cuidado com o lixo e sobre tudo o que está ao redor.

Em sala, o tema deve ser tratado de maneira transversal e relacionado aos conteúdos. E, para ser coerente, a escola deve dar o exemplo. "Se o ambiente é agradável e respeitoso, os alunos levam para casa e para a vida essa mesma exigência na maneira de ser", diz Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 e docente do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Especialistas do mundo inteiro estarão no Rio de Janeiro em junho para discutir o assunto durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Novos olhares para esse emaranhado de relações podem surgir. "A sociedade, apoiada na ideia do desenvolvimento econômico, precisa ser desconstruída para ser transformada. Embora se pense na questão há mais de 40 anos, pouco se alterou na vida prática. Temos urgência de mudanças e, com a participação de todos, é mais fácil isso virar realidade", afirma a especialista em Educação Ambiental Rachel Trajber, responsável pelo setor de Educação do Instituto Marina Silva, em Brasília.

Cidadania sustentável e sustentabilidade

 
Explique o que realmente é sustentabilidade. E aproveite para propor uma pesquisa sobre cidadania sustentável, com exemplos de iniciativas preocupadas com uma sociedade economicamente viável sem deixar de ser ética
Imagem: Eduardo Pozella


Objetivos
- Compreender o conceito de sustentabilidade
- Apreender a relação entre sociedade, natureza e Economia

Conteúdos
- Cidadania
- Sustentabilidade

Anos
7º e 8º anos

Tempo estimado
Três aulas

Materiais necessários

- Computadores com acesso à internet
- Revistas, jornais e livros para pesquisa  

Desenvolvimento
1ª etapa
Para começar, pergunte à turma quem já ouviu a palavra sustentabilidade e o que acham que significa. Anote as respostas na lousa e questione a origem desses significados.

É possível que os estudantes já tenham ouvido falar de "empresas sustentáveis", que adotam o termo como uma estratégia de marketing para mostrar que se preocupam com o meio ambiente. Talvez já tenham encontrado em algum lugar a expressão "ações sustentáveis", atitudes que estariam de alguma forma, ligadas à preservação da natureza.

Porém, o termo é mais amplo do que parece e envolve uma nova maneira de viver e de estar na sociedade, tanto para indivíduos quanto para empresas e governos. Ele vem da década de 1970, quando o economista Ignacy Sachs trouxe ao mundo o conceito de "ecodesenvolvimento". Na década seguinte, o norte-americano Lester Brown defendeu a importância de satisfazer às próprias necessidades sem reduzir as oportunidades das novas gerações. Mas a principal repercussão veio com a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, realizada no Rio de Janeiro em 1992.

Na época, vários grupos sociais se pronunciaram a favor de uma nova maneira de conduzir o desenvolvimento das nações, não só para melhorar o desempenho econômico mas também considerando que o planeta tem recursos naturais finitos. Assim, qualquer atividade, seja de uma instituição, seja de uma pessoa, deveria respeitar três pilares: ser economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta.

Hoje, os especialistas indicam que não há um modelo único de desenvolvimento, mas que outros aspectos devem ser levados em conta, como o respeito às diversidades culturais, as políticas de longo prazo e a ética. Outro item pode ser acrescentado à lista: a mudança de atitude. Isto significa que cada um deveria implementar mudanças na maneira como vive, criando e reformulando hábitos que permitam uma convivência mais ética, com repercussões na sociedade e no meio ambiente.

2ª etapa
Divida a sala em grupos. Cada grupo ficará responsável por pesquisar um tema relacionado à cidadania e sustentabilidade. Avise aos estudantes que é fundamental conduzir a pesquisa relacionando com o conceito de sustentabilidade visto anteriormente. Isso significa que eles não poderão esquecer a participação individual e das empresas nas ações pesquisadas, por isso é fundamental propor o que cada um destes sujeitos podem fazer. Veja três sugestões de assuntos que podem ser pesquisados pelos alunos:

- Poluição política: aproveite as eleições para pedir que fotografem abusos contra o patrimônio público na sua cidade. Os alunos poderão notar como são desperdiçados recursos como, por exemplo, papéis para a impressão de panfletos e a madeira utilizada para produzir placas. Além da enorme quantidade de lixo, como "santinhos", dispensado nas ruas ou em lugares impróprios.

- Cidades sustentáveis: peça uma pesquisa sobre cidades que já adotaram meios sustentáveis para utilização de energia como reutilização do lixo, taxas sobre o lixo ou orientações para preservação do meio ambiente.

- Participação cidadã pela internet: proponha uma investigação sobre os movimentos que começam na web e defendem causas ou fazem reivindicações, como a campanha para que a presidente Dilma vetasse o novo Código Florestal. Lembre que para o teórico Manuel Castell, as tecnologias de informação e comunicação possibilitaram uma nova forma de organização social, menos hierárquica e centralizada. De forma diferente das mobilizações políticas tradicionais, na era das "redes" são cada vez mais raros os movimentos sociais com lideranças formais. A participação popular seria mais direta e menos sujeita a interesses particulares de indivíduos ou grupos poderosos e estabelecidos.

3º etapa
Prepare uma aula dedicada a dar mais repertório aos alunos. Acompanhe o andamento das pesquisas e aproveite este momento para ensinar conceitos que ajudarão para um trabalho final com mais conceitos. Aponte os pontos que uma cidade que pretenda ser sustentável deve ter como: planejamento, boa gestão, participação, economia responsável, compromisso com os valores urbanos e cuidado com a natureza.

No caso do Brasil, onde a população urbana já atinge 85% com chances de aumentar, se não houver um planejamento, o crescimento será desordenado. Na prática, isso significa que provavelmente os problemas tipicamente urbanos aumentarão já que a demanda por recursos naturais será cada vez maior.

Mostre exemplos de cidades como Copenhagen, na Dinamarca. Com 530 mil habitantes, lá 55% dos moradores trocam seus carros por bicicletas. A cidade dispõe de 340 km de ciclovias para atender essa demanda. Rizhao, cidade chinesa com 2,8 milhões de habitantes, tornou obrigatório o uso de aquecedores solares em todos os prédios da cidade. Lá as luzes dos parques e semáforos são alimentados por energia solar, o que reduziu a emissão de gases poluentes. Um outro exemplo é a cidade de Chicago, nos Estados Unidos e Malmo, na Suécia. Ambas utilizam sistemas de telhados verdes que reduzem inundações.

Levante uma discussão com os alunos perguntando quem eles acham que são os responsáveis por estas ações. É provável que alguns respondam que esta é uma responsabilidade do governo. Pesquise antecipadamente o histórico das obras feitas nessas cidades e observe se o poder público estava articulado com a iniciativa privada ou se algumas associações participaram da construção de ciclovias ou de prédios mais sustentáveis. Este é um bom momento para esclarecer quem nem sempre cabe às autoridades a solução dos problemas e que muitas atitudes sustentáveis podem partir de empresas e cidadãos.

Traga para a sala os acordos aprovados na Conferência Ambiental Rio+ 20, que aconteceu em junho de 2012. Destaque o não comparecimento da maioria dos líderes dos chamados países desenvolvidos. Uma possível justificativa para esta ausência é a crise econômica europeia que exigiu que seus políticos se voltassem para problemas internos, deixando os maiores gastos com sustentabilidade em segundo plano.

Enfatize também que na Rio+ 20, não foram discutidos só o meio ambiente. Alguns temas como desenvolvimento, pobreza, produção consumo e exploração de recursos naturais foram apresentados, o que demonstra que o tratamento e a importância que damos à natureza não estão desvinculados da sociedade e da economia.

4º etapa
Reserve a aula para que os grupos apresentem as pesquisas que fizeram e as formas de participação encontradas. Seu papel neste debate é avaliar a turma e também ampliar os temas pesquisados levantando questionamentos e respondendo eventuais dúvidas.

Avaliação
Com as discussões e a pesquisa, observe se os alunos compreenderam o que é sustentabilidade e como este conceito também inclui o comportamento de indivíduos e empresas.
Thiago Celestino
Professor de Geografia da rede privada e da rede pública do Estado de São Paulo

Como e por que os homens trabalham

Ensinar como eram as relações sociais em diversas épocas ajuda a entender em quais aspectos a concepção de trabalho mudou

Daniele Pachi
 
Trabalho contemporâneo. Foto: Joedson Alves/AE
O trabalho contemporâneo é marcado por direitos garantidos aos empregados, como segurança, carga horária e registro em carteira
Acordar cedo, tomar café da manhã e sair apressado para trabalhar. Provavelmente, essa cena faz parte do cotidiano de familiares de grande parte dos estudantes.

Será que a garotada imagina que a dinâmica do trabalho nem sempre funcionou da forma como conhecemos e vivenciamos nos dias de hoje? Essa é uma reflexão importante para ser proposta nas aulas de História. Para fazer isso, é possível aproveitar conteúdos considerados clássicos da disciplina que fazem parte do currículo de 6º e 7º anos: Roma e Grécia antiga e Idade Medieval.

"Estudar com a turma as sociedades desses períodos sob a perspectiva do trabalho é interessante porque ajuda os alunos a conhecer esse aspecto e a relação dele com as transformações que ocorreram - e ainda ocorrem - na sociedade ao longo da História", diz Juliano Custódio Sobrinho, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Para uma base sólida e uma exploração crítica, o professor precisa auxiliar os jovens a comparar o ontem e o hoje. Dessa maneira, eles vão poder relacionar os conteúdos estudados e a realidade em que vivem e fazer conjecturas.

Inicialmente, para apresentar o tema que será foco das aulas, é fundamental falar, ainda que brevemente, sobre as origens do Dia Internacional do Trabalho, (1º de maio) e seu significado social e histórico (veja o quadro abaixo). Em seguida, proponha aos estudantes, como objetivo final do estudo, a elaboração de um quadro comparativo entre as relações trabalhistas nos dias atuais, na Antiguidade e na Idade Média.

Esclareça que, para conhecer o contexto atual, eles devem ir a campo e entrevistar pessoas conhecidas (como familiares, amigos e funcionários da escola). A organização da lista de perguntas deve ser coletiva e você, professor, tem de supervisionar a seleção e fazer os ajustes necessários. Não podem faltar questões como "você trabalha quantas vezes por semana?", "tem mais de um emprego? Por quê?", "recebe algum tipo de bonificação?", "tem direito a férias remuneradas?" e "é registrado em carteira ou autônomo?". Outras perguntas, sobre valor salarial, por exemplo, não são interessantes para esse tipo de exploração.

Feitas as entrevistas, é hora de socializar as respostas e o grupo, ainda reunido, deve identificar características que marcam o mundo trabalhista atual. É possível, dentre outros cenários, que as pessoas entrevistadas ganhem salário, trabalhem em mais de um emprego e realizem uma jornada definida, com direito a receber benefícios e bonificações (essas últimas, de acordo com o cumprimento de metas estabelecidas previamente e comunicadas pelo empregador).

Antes de mergulhar com a turma nas sociedades do passado, pergunte por que as pessoas, hoje em dia, trabalham durante quase toda a vida. É provável que as respostas tenham a ver com a necessidade de ganhar dinheiro para arcar com as necessidades da família (comprar comida, roupas e remédios e viver em boas condições). Esse é um momento importante para contar que a subsistência sempre foi um dos principais motivos pelo qual os homens trabalham. Mas a relação entre empregadores e trabalhadores já sofreu grandes mudanças, bem como a forma da atividade: antes, escrava ou devida a alguma obrigação para com o patrão, e agora, livre. "Fazer um resgate histórico sobre essa atividade em vários aspectos (social e econômico, por exemplo) ajuda a entender por que as relações trabalhistas ganharam a configuração atual e se tornaram cada vez mais dinâmicas", afirma Sobrinho.
O Dia do Trabalho
Em 1º de maio de 1886, norte-americanos saíram às ruas de Chicago por melhores condições de trabalho. Eles reivindicavam a redução da jornada de 13 para oito horas, salários mais altos, descanso semanal remunerado e férias anuais. No mesmo dia, aconteceu uma greve geral no país. Os conflitos entre os manifestantes e a polícia se intensificaram: oito operários morreram e vários foram presos. Alguns, acusados de liderar as manifestações, foram julgados e sentenciados à morte. Três anos depois, a data foi oficializada internacionalmente como o dia que representa as conquistas dos direitos dos trabalhadores. No Brasil, é comemorada desde 1925.

Por que é importante estudar?

Aborde com a turma o real papel da educação na vida das pessoas. Aproveite para inspirar uma reflexão sobre a crença comum que estudar serve principalmente para que os indívidos ganhem dinheiro e "subam" na vida

Educação: ascensão social ou conhecimento? Imagem: produção NOVA ESCOLA
Objetivos
- Explorar os conceitos de estratificação e mobilidade social
- Discutir a importância da formação educacional para os indivíduos

Conteúdos
- Socialização escolar
- Processo de construção da identidade

Anos
- Ensino Médio

Tempo estimado
Duas aulas

Materiais necessários
- Cópias da reportagem "A Mágica da Educação"  (Veja, 2311, 06 de março de 2013)

Introdução
O texto de Claudio de Moura Castro, "A Mágica da Educação", sugere que a educação é fundamental para a vida profissional. Para ele, a constante busca por novos conhecimentos e aprimoramento pessoal está diretamente relacionada a melhores salários e promoções. Assim, a educação e o aprendizado informal são apresentados como formas de ascensão profissional.

Em um sentido mais amplo, a educação pode ser vista não apenas como uma forma de conseguir bons empregos e salários elevados, mas também como um meio para compreender o mundo e entender nossa posição na sociedade. Por isso, constitui uma ferramenta de mobilidade social. Nesse plano de aula, a discussão sobre a educação é o ponto de partida para apresentar os conceitos sociológicos de estratificação e mobilidade social.

Desenvolvimento
1ª etapa
Distribua cópias do artigo "A mágica da Educação", publicado em Veja, para a turma e conduza uma leitura coletiva. Em seguida, discuta o texto com os alunos. Se preciso, utilize as questões abaixo para conduzir o bate-papo:

- Qual a opinião do autor sobre a educação? Ela é importante no momento de conseguir um bom emprego?
- Que tipo de educação o autor menciona? Qual a opinião dele sobre a educação informal?
- Qual a diferença entre "educação" e "conhecimento"?
- A educação serve apenas para ter um bom emprego?
- Quais os efeitos da educação formal em outras áreas da vida pessoal?
- Estudar e concluir uma faculdade ajuda a "subir na vida"?
- A educação é importante para compreender a política e a sociedade?


Procure expandir a discussão, utilizando as situações citadas pelos alunos. Faça com que eles reflitam sobre as mudanças que a educação pode trazer na vida afetiva, nas atividades de lazer ou no engajamento político das pessoas. Por fim encerre essa etapa com uma última questão: como a educação pode mudar a vida das pessoas? Peça que os estudantes escrevam um parágrafo com a resposta e alerte que esse pequeno texto será usado nas etapas seguintes.

2ª etapa
Inicie com uma rápida revisão da leitura e das anotações dos alunos. Certifique-se que todos tenham compreendido a ideia central proposta por Claudio de Moura Castro. Em especial, faça com que a ideia da "educação como forma de ascensão social" esteja clara. Ela será fundamental para os próximos passos.

Utilize o texto abaixo para preparar uma exposição sobre o tema. Ou, se preferir, conduza uma leitura com os alunos e peça que levantem questões a partir da atividade.
Tipos de mobilidade social
A educação é frequentemente associada com a possibilidade de mobilidade social ascendente (também conhecida como mobilidade vertical ou, mais simplesmente, como ascensão social). Isto é, com mudanças significativas na posição ou status social de um indivíduo, seja em relação aos membros de seu grupo social, em relação aos seus pais ou gerações anteriores ou ainda em comparação com outros em situação semelhante.

Para compreender completamente esse fenômeno, no entanto, é preciso entender o conceito de estratificação social. Os grupos possuem variadas formas de organização e distribuição de papéis, que determinam a posição social dos indivíduos, isto é, os estratos sociais. Na literatura sociológica, existem três tipos de estratificação social: casta, estamento e classe.

Nas sociedades estratificadas por castas, a posição do indivíduo é fixa desde o nascimento, ou seja, a mobilidade social é mínima. Um bom exemplo é o da Índia. Lá, historicamente, membros de diferentes castas interagem minimamente e alguns são obrigados a conviver exclusivamente com seus pares. As pessoas nascem, crescem e morrem sem poderem alterar sua posição social.

A sociedade medieval é um exemplo de estamento. Nesses casos, o contato entre diferentes camadas sociais é permitido, como a relação entre nobreza, clero e servos na Idade Média. No entanto, a mobilidade é ainda mínima. A reprodução por meio de casamentos e nascimentos ocorria apenas entre membros do mesmo estamento: nobres casavam com nobres e servos com servos. O clero, formado por religiosos que não podiam contrair matrimônio segundo as leis da Igreja, recrutava membros dos outros estamentos para se manter, mas a condição dos ingressantes era determinada por sua origem. Os altos cargos da igreja eram sempre ocupados por nobres.

Sociedades de castas ou estamentos são consideradas como sistemas de mobilidade restrita.

Com a modernidade, esse sistema entrou em decadência. Em seu lugar, surgiu o sistema de classes. Para pensadores como Karl Marx, o capitalismo comporta apenas duas classes: a burguesia, que possui os meios de produção (dinheiro, ferramentas, fábricas etc) e o proletariado, que vende sua força de trabalho para os burgueses.

Para outros sociólogos, como o alemão Max Weber, a classe social é um fenômeno muito mais complexo, e envolve não apenas os recursos financeiros, mas a cultura, a educação e o poder político. De acordo com essa vertente, é mais comum pensar em classes baixas, médias e altas.

Nas sociedades modernas a mobilidade social é um fenômeno possível, principalmente por não existirem regras que impeçam as pessoas de mudarem de estrato ou camada. Por isso, a sociedade atual é considerada como um sistema de mobilidade aberta. A mobilidade nas sociedades capitalistas modernas pode ser classificada de acordo com os seguintes tipos:

Mobilidade horizontal: se refere à mudança de posição dentro da mesma camada social. Ex: mudança de ocupação profissional.
Mobilidade vertical: acontece quando uma pessoa muda de classe social. . Costuma ocorrer por acúmulo ou perda de bens e finanças, mas também é decorrente de mudanças no status social de um indivíduo. Ou seja, alguém pode continuar com o mesmo dinheiro, mas perder prestígio e legitimação social.
Mobilidade estrutural: é o termo utilizado para descrever o impacto de mudanças mais amplas na posição de indivíduos ou grupos.

A educação é geralmente vista como um mecanismo para a mobilidade social ascendente, pois proporciona ao indivíduo o conhecimento, as práticas e o vocabulário necessários para o trabalho e a vida nas camadas sociais mais altas. Nesse sentido, seria tanto a "porta de entrada" como também a forma de manutenção do novo status social.

Muitos sociólogos, no entanto, analisam essa perspectiva com certa desconfiança: a ideia da educação como motor da ascensão social pressupõe que todas as pessoas possuem condições iguais e que o esforço individual determina o sucesso ou fracasso. Para certos especialistas, essa ideia é falsa: os membros das classes baixas sempre estarão em desvantagem na competição por ascensão social, pois foram criados e educados em ambientes menos favoráveis.
(Maiko Rafael Spiess)
Após apresentar o texto, discuta com a turma os conceitos de estratificação e mobilidade, esclarecendo quaisquer dúvidas. Se preferir, utilize exemplos da literatura e filmes para demonstrar os diferentes tipos mencionados.

3ª etapa
Em relação aos processos de mobilidade social, faça a turma a refletir sobre o papel da educação de forma mais ampla: como nos posicionamos em relação ao mundo e as outras pessoas quando aprendemos coisas novas? Qual a importância de continuar se especializando? Como uma pessoa analfabeta e com pouca instrução vê o mundo, em termos de oportunidades e obstáculos?

Para essa etapa, escreva as seguintes frases no quadro:

1. "O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele."
Immanuel Kant (filósofo alemão)

2. "Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés."
Joseph Joubert (escritor francês)

3. "A experiência escolar não pode ser a mesma para o filho de um executivo de nível superior que encontra necessariamente em seu entorno social, e mesmo em sua família, os estudos superiores como um destino banal e cotidiano, e para os filhos de um operário que só conhece os estudos e os estudantes através de outras pessoas e por meios indiretos. O primeiro sempre terá vantagem sobre o segundo."
adapt. de "Os herdeiros: os estudantes e a cultura" (Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (sociólogos franceses)

4. "Quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e o seu trabalho pode criar um mundo próprio, seu Eu e as suas circunstâncias."
Paulo Freire (educador brasileiro)

Discuta os trechos acima com a turma. Note que cada um dos fragmentos representa uma visão distinta sobre o papel da educação na vida das pessoas.

Logo após, peça que os alunos utilizem as anotações feitas em sala de aula e as frases sugeridas para elaborar uma redação (algo entre 5 e 6 parágrafos) sobre a relação entre educação e mobilidade social. Como forma de direcionamento, sugira o seguinte tema: "Para que serve a educação: conhecer o mundo e questioná-lo ou ascender socialmente?"

Avaliação
Analise se cada um dos estudantes alcançou os objetivos desta sequência didática. Ao final das etapas eles deverão ter analisado e discutido o que significa mobilidade social, o que é educação e qual seu real papel na vida das pessoas. Você pode verificar se eles alcançaram esses conhecimentos a partir das discussões, da participação em sala e do texto solicitado.

Maiko Rafael Spiess
Sociólogo e pesquisador visitante do Departamento de História da Ciência da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos

Sobra mês, falta dinheiro

 
Objetivos
Aprofundar conhecimento sobre a história recente do Brasil e discutir a relação entre renda do trabalhador e consumo

Introdução
A leitura de certos textos dá a sensação do reencontro com um velho conhecido. É o caso da entrevista com o empresário italiano Enzo Rossi, que resolveu atravessar um mês com o salário de um de seus empregados - cerca de 1.000 euros. Com palavras simples, ele conta que "sobrou mês" no fim do salário: era quase impossível viver com aquela quantia. Decidiu então aumentar a remuneração de seus operários, o que os levaria a trabalhar com mais empenho e ter mais recursos para adquirir os produtos que fabricavam. Desse modo, todos lucrariam, concluiu. "As vendas vão disparar."

Informe aos alunos que Rossi retoma aspectos aparentemente desprezados pelos economistas da globalização, como a importância do mercado interno para o crescimento. Esse modelo vigorou na América Latina entre os anos 1940 e 1960, sendo chamado por alguns autores de "nacional desenvolvimentismo". Muito antes disso, Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística, já pagava salários razoáveis a seus funcionários, para que estes pudessem comprar os Ford Modelo T que fabricavam. O entrevistado tem, portanto, antecessores ilustres. Use o texto como base para o exame do mundo do trabalho, do qual os alunos já participam ou vão participar em breve.
Para seus alunos

Greve dos Mineiros do Pas-de-Calais: a combatividade operária numa ilustração de 1906. Ilustração: Reprodução
Greve dos Mineiros do Pas-de-Calais:
a combatividade operária numa ilustração
de 1906.  Ilustração: Reprodução
  

Atividades

1ª aula - Verifique a imagem que a classe tem de Enzo Rossi. Um idealista, um empresário objetivo ou um homem com um profundo sentimento de solidariedade ao próximo? Ele declara que "valeu a pena reduzir um pouco a mais-valia", o que leva o repórter a perguntar, surpreso: "Mais-valia? Por acaso o senhor é marxista?". Solicite uma pesquisa desse conceito-chave do pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels. Aponte que, antes dos dois autores alemães, a questão dos salários visando a uma sociedade mais justa já havia sido pensada por intelectuais socialistas como Saint-Simon, Robert Owen e Charles Fourier. Este último idealizou uma forma de consumo e produção dentro de comunidades de trabalho. Depois vieram os anarquistas, que disputaram com marxistas a liderança no movimento operário no final do século XIX e início do século XX.

O socialismo defendido por esses autores foi denominado de "utópico" por seus opositores marxistas (os quais se autodenominavam "socialistas científicos"), uma vez que os teóricos expunham os princípios de um mundo ideal sem indicar os meios para alcançá-lo. Mas a visão de uma sociedade igualitária não surgiu com o socialismo. Na França do século XVIII, Gracus Babeuf escreveu o Manifesto dos Iguais, enfatizando o abismo entre a tríade "liberdade, igualdade, fraternidade" e a desigualdade real. No século XIX, com o capitalismo industrial em crescimento acelerado, as cidades tornaram-se centros de proletários com baixos salários. As críticas ao liberalismo resultaram da constatação de que o livre mercado não trouxe o equilíbrio prometido. Ao contrário, instaurou uma ordem injusta e imoral.

Vale a pena pesquisar as propostas dos socialistas utópicos, marxistas e anarquistas. Mostre também a ilustração A Greve dos Mineiros do Pas-de-Calais (acima) e encomende à turma uma análise iconográfica da obra. Ressalte que as bandeiras vermelhas sugeriam a hegemonia socialista entre os trabalhadores da área, pois os anarquistas tinham como símbolo uma bandeira negra. Destaque a presença de mulheres e crianças entre os manifestantes, fruto da sólida união forjada nas comunidades mineiras.

2ª aula - O entrevistado considerou insuficiente um salário de 1.000 euros. E seus alunos, o que eles acreditam ser um salário justo para os trabalhadores brasileiros? Explique que a Constituição Brasileira, em seu artigo 7º, item 4º, estipula que o salário mínimo deve ser capaz de atender a necessidades vitais básicas "como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim". O salário mínimo atual é capaz de atender a todas essas necessidades?

Distribua cópias do quadro "Cestas de Tamanhos Desiguais" (abaixo) à turma e demande a realização dos debates. Solicite um exame, na internet, sobre qual deveria ser o valor do salário mínimo atual de acordo com organismos como o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Esse salário, caso fosse adotado pelo governo, traria quais conseqüências para o país?3ª aula - Recorde que a era Vargas foi um marco na vida do trabalhador brasileiro. Para controlar e fiscalizar o sindicalismo, foram criados o salário mínimo em 1940, o imposto sindical e os serviços estatais de aposentadoria, e colocada em vigor a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. No entanto, ao lado das concessões aos trabalhadores - auxílio-natalidade, salário-família, licença-maternidade, estabilidade no emprego (após dez anos), descanso semanal remunerado - deixaram de existir o direito de greve e a independência dos sindicatos. Estes passaram a ser dirigidos por "pelegos", ligados ao governo.

Acrescente que, após a criação do salário mínimo, houve um crescente distanciamento entre a evolução do seu poder de compra e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita. Apenas na década de 1950 é que o mínimo passou a crescer em níveis próximos aos do PIB. A partir de 1964, a política de arrocho dos salários acarretou um afastamento de suas trajetórias, uma das causas da desastrosa distribuição de renda atual do país.

Após essas observações, encomende à turma uma pesquisa de imagens sobre o Estado Novo da era Vargas (1937-1945), quando o governo criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) com o objetivo de difundir uma boa imagem do ditador. A análise de fotos e ilustrações, nos moldes da realizada em relação à greve dos mineiros franceses, vai ajudar a compreender a história do trabalho no Brasil.
Para seus alunos  
Cestas de tamanhos desiguais
Examine com seus colegas a tabela abaixo. Ela mostra a renda per capita de 2006 dos quatro países do Mercosul e da Itália de Enzo Rossi, com relação à paridade do poder de compra. Esse método mede o quanto uma determinada moeda pode comprar em termos internacionais, considerando não apenas as diferenças de rendimento, mas também as distinções no custo de vida. Assim, proporciona uma visão mais realista da riqueza da população.

Alguns temas para discussão: se o Brasil é bem mais industrializado que a Argentina, por que os hermanos têm um poder de compra quase duas vezes superior ao nosso? Se o salário de um italiano era considerado insuficiente, o que dizer de um trabalhador paraguaio, com uma renda quase sete vezes menor?
 
 
Consultor Ricardo Barros
Professor de História do Colégio Paulista

Relações entre estudos e mercado de trabalho

Examine com os alunos uma questão que está presente na vida de todos: por que é essencial estudar cada vez mais para garantir um bom emprego?

 Mesa com currículo e óculos . Imagem: freepik
Objetivos
- Compreender as categorias emprego e desemprego na atualidade;
- Identificar o perfil daqueles que são mais atingidos pelo desemprego no Brasil
- Reconhecer as causas do desemprego na atualidade

Conteúdos
- Processo de trabalho e relações de trabalho
- Transformações no mundo do trabalho
- Emprego e desemprego na atualidade

Anos
Ensino Médio

Tempo estimado
06 aulas

Materiais necessários
- Computadores com acesso à internet
- Livros, revistas e jornais para os alunos realizarem as pesquisas solicitadas ao longo desta sequência didática

Introdução

Nesta semana, Veja publica uma entrevista com Glaucius Oliva, presidente do Comitê Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele explica como administra o programa "Ciências sem fronteiras", uma iniciativa que concede bolsas no exterior a estudantes de graduação e pós-graduação. Ele conta como o projeto tem a finalidade de melhorar alguns setores da economia brasileira - especialmente aqueles ligados às áreas de exatas e biológicas - e porque a qualificação em universidades estrangeiras é um diferencial.

A reportagem é uma boa leitura para você fazer antes de preparar uma sequência didática sobre a relação entre qualificação profissional, estudos e bons postos no mercado de trabalho. O tema tem relação com outros conteúdos curriculares como globalização, relações de trabalho e emprego, entre outros. Acesse o texto no acervo digital de Veja. Boa leitura e bom trabalho!

Desenvolvimento
1ª etapa
Proponha aos estudantes uma "roda de conversa" para discutir as grandes mudanças ocorridas no mundo do trabalho com o advento da sociedade industrial e as novas exigências à qualificação requerida aos trabalhadores. Relembre alguns conceitos importantes, como: "trabalho", "população economicamente ativa (PEA)", e "população economicamente inativa (PEI)". Se achar necessário, você pode acessar a descrição de cada um deles no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Em seguida, problematize propondo algumas questões:
- Você conhece alguma pessoa desempregada? Há quanto tempo essa pessoa está sem trabalhar?
- Qual o nível de escolaridade dessas pessoas?
- Em qual setor da economia (primário, secundário ou terciário) elas atuavam?


Oriente o grupo a fazer uma pesquisa com dez pessoas desempregadas. Os alunos deverão investigar, dentre outros aspectos, o tempo de desemprego, o motivo da demissão, o setor da economia em que atuam e o nível de escolaridade das mesmas.

2ª etapa
Auxilie os alunos na elaboração de um gráfico que demonstre as informações levantadas nesta pesquisa. A atividade é oportuna para ser trabalhada em parceria com professores de outras áreas do conhecimento, em especial com a área de Matemática, pois envolve a tabulação dos dados e escolha do tipo de gráfico mais adequado (barras, colunas, pizza, linhas etc) para representar as informações, bem como a construção dessa forma de representação cartográfica.

Se a escola possuir laboratório de informática aproveite oriente os estudantes a utilizarem o computador como recurso para a elaboração dos gráficos. Planeje a atividade com antecedência a fim de que os objetivos propostos sejam alcançados.

3º etapa

Se os computadores da sua escola forem conectados à internet, proponha uma pesquisa em sites de busca (dê preferência às plataformas educacionais multimídia, como por exemplo, a Britannica Escola Online, recomendada pelo MEC). Com esse recurso os estudantes poderão levantar informações sobre as principais características da Primeira, Segunda e Terceira Revolução Industrial, com destaque para as mudanças fundamentais acontecidas nas relações de trabalho desde as atividades artesanais até aquelas desenvolvidas nos setores mais modernos da indústria e dos serviços especializados.

Oriente e ajude os estudantes a elaborem um quadro comparativo mostrando as principais mudanças nas relações de trabalho em cada período histórico.

Após a apresentação dos quadros ilustrativos pelos grupos, evidencie que todas estas mudanças no mundo do trabalho caracterizam-se, essencialmente, por:
- diminuição dos ciclos de produção
- mudança na divisão do trabalho dentro das empresas
- consolidação das tecnologias da informática
- polivalência e treinamento dos trabalhadores como requisitos essenciais aos novos processos produtivos

4ª etapa
Apresente a charge a seguir e questione os adolescentes sobre o tema que ela aborda:

 Charge sobre desemprego. Imagem: Luigi Rocco

Charge: Luigi Rocco. Disponível no site Humorama

Após expressarem suas opiniões, ressalte que todas essas mudanças no mundo do trabalho foram provocadas especialmente pelo desenvolvimento tecnológico. O objetivo era o aumento da produtividade (com otimização de tempo e de matéria-prima). Vale lembrar que o desenvolvimento tecnológico dificulta a inserção ou permanência no emprego de trabalhadores com menor grau de instrução.

5º etapa
Prossiga mediando a produção de novos conhecimentos por parte dos estudantes. Faça questões como:
- Quais são as vantagens que o desenvolvimento tecnológico proporcionou nos processos de produção nos setores primário, secundário e terciário?
- Quais são as desvantagens que o desenvolvimento tecnológico proporcionou nos processos de produção nos setores primário, secundário e terciário?


Solicite aos alunos que pesquisem em jornais, revistas ou outras mídias, respostas para as questões acima. Reserve um tempo para que os resultados das pesquisas sejam compartilhados.

6º etapa
Evidencie que ao passo que novas tecnologias permitem um aumento significativo de crescimento econômico, elas causam também a elevação do "desemprego estrutural", originado pela substituição da mão de obra humana pelo trabalho de máquinas e equipamentos modernos comandados por sistemas informatizados. Neste sentido, esclareça que as pessoas com menor nível de escolaridade ou são excluídos definitivamente dos postos de trabalho, aumentando assim os números do trabalho informal, ou são conduzidas a postos de trabalho com salários cada vez mais baixos. Problematize com perguntas como:

- Quem são os excluídos dos postos de emprego que exigem mão de obra qualificada/especializada?
- Qual a importância da qualificação profissional no atual contexto econômico e tecnológico em que vivemos?


Permita que os estudantes expressem suas opiniões. Ressalte que a ocupação dos cargos nos mais diferentes setores da economia depende, em tempos de globalização comercial, de maior qualificação profissional, decorrente de níveis de escolarização cada vez mais elevados. Conte que as inovações tecnológicas favoreceram o aumento do desemprego e simultaneamente, criaram novos postos de trabalho mais complexos, porém em número bem menor. Os trabalhadores dispensados no primeiro caso dificilmente conseguem recolocação nos novos postos criados.

Esclareça que, ao mesmo tempo em que o desemprego estrutural reduz a presença humana nos postos de trabalho seja no setor primário, secundário ou terciário, demanda também, a presença de uma outra mão de obra mais especializada para operar instrumentos cada vez mais complexos.

7ª etapa
Para estimular o interesse dos estudantes, convide-os a ouvirem, com atenção, a música "Meu nome é trabalho" de autoria de interpretação de Arlindo Cruz, disponível na internet:

Meu nome é trabalho
(Arlindo Cruz)
Meu nome é trabalho mas eu tô pegado
A fim de um cascalho vou pra todo lado
Tenho cinco pirralhos chorando um bocado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Já fui pedreiro, carpinteiro
Motorneiro e até motorista
Já fui copeiro, fui caseiro
Jornaleiro e até jornalista

Meti os peitos, fiz tudo direito
Sou advogado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Mecanó, Datiló
Estenógrafo eu sou
Maquinista, copista
Analista de computador

Fui profeta, atleta
Poeta e até professor formado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Toco viola e sei jogar bola também
Levei sacola, vendi mariola no trem
Carreguei (vadiola), brequei minha sola
Não tenho um vintém furado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Meu nome é trabalho mas eu tô pegado
A fim de um cascalho vou pra todo lado
Tenho cinco pirralhos chorando um bocado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Já fui burocrata, fui tecnocrata
Vendi ouro e prata a doidado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Vou pro psicólogo e fonoaudiólogo
Eu fui elogiado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Eu não sou de roubar, eu não sou marajá
E nem sou de chegar atrasado
Vê se quebra o galho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Eu não quero ser doutor, nem ser embaixador
E nem governador do Estado
Meu nome é trabalho doutor, tô desempregado
Me arranja um trabalho doutor, tô desempregado

Após ouvirem a música, pergunte:
- Que problema retrata a letra dessa música? Que leitura(s) pode-se fazer desta canção?
- Quem eram os desempregados de ontem e quem são os de hoje?



8º etapa

Auxilie os grupos a elaborem um quadro comparativo mostrando os principais motivos do desemprego em cada momento histórico (Primeira, Segunda e Terceira Revolução Industrial), bem como o nível de escolaridade das pessoas mais afetadas nos postos de trabalho.

 Tabela com comparação do desemprego nas três revoluções industriais . Imagem: produção NOVA ESCOLA

Destaque, ainda, que as significativas mudanças sofridas nos postos de trabalho alteraram a distribuição das pessoas economicamente ativas nos setores da economia, aumentando expressivamente o número daquelas que atuam no setor terciário (comércio e serviços).

9ª etapa

Nesta etapa, auxilie os adolescentes a sistematizarem o que aprenderam sobre a importância da formação para o mercado de trabalho no mundo atual.

Resgate as ideias e informações mais interessantes apontadas no decorrer das discussões e propicie a compreensão de que é fundamental ponderarmos o fato de que vivemos na "era do conhecimento" e "da informação" e, dessa forma, a educação tem um papel cada vez mais propositivo.

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em março de 2011 os pobres brasileiros representavam 55% do total de desempregados. O que seus alunos acham que isso significa? Permita que eles digam o que pensam e reforce que esse dado é muito expressivo, já que reflete as dificuldades das classes menos favorecidas em terem acesso a uma educação de qualidade.

E o que eles acham que pode ser feito para melhorar a educação do nosso país?

Solicite aos grupos que pesquisem e citem exemplos de ações que podem mudar a situação atual da educação brasileira. Eles poderão elaborar políticas de investimento na educação pública (do ensino fundamental à pós-graduação) com o objetivo de minimizar a pobreza e a exclusão social. O crescimento econômico somente é possível a partir da disponibilidade de mão de obra especializada, propiciado por uma formação escolar de boa qualidade.

Ressalte que cada vez mais é imprescindível estudar para garantir um posto no mercado de trabalho na atualidade. Tem sido comum que o trabalhador, almejando atender às novas exigências, busque qualificação. Porém, muitas vezes, carente de senso crítico e sem orientação, ele corre o risco de se tornar vítima das armadilhas de algumas escolas de especialização (cursos de informática, inglês "fácil" e rápido e inclusive pós-graduação em universidades de qualidade duvidosa), que confundem "Educação" com simples "mercadoria".

Avaliação
Nos debates durante as análises, na produção e nas apresentações em forma de painéis e exposições, verifique se cada aluno compreendeu e utilizou adequadamente os conceitos abordados e soube analisar as informações levantadas. Atenção à participação individual e coletiva! Avalie a postura de cada aluno e destaque os aspectos que necessitam ser melhorados para uma ação efetivamente colaborativa no grupo. Por meio de representações (desenhos, painéis, dentre outras) verifique as dificuldades de cada estudante em relação à assimilação dos conceitos estudados. Proponha a criação de um blog coletivo com a finalidade de divulgar os conhecimentos adquiridos durante cada atividade de pesquisa.

Quer saber mais?
Antunes, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 4.ed. São Paulo: Cortez, 1997.
BritannicaEscola Online.
 
Suely Gomes
Professora de Geografia da Escola de Educação Básica da Universidade Federal de Uberlândia

Organização do Estado brasileiro

Apresente aos alunos como funciona a organização e a administração do Estado brasileiro. E utilize o conceito de federalismo para apresentar as funções de cada nível: federação, estados e municípios

 Mapas com a divisão história dos estados no Brasil . Imagem: produção Nova Escola
Mapa mostra a organização do território brasileiro desde o período colonial. As mudanças da administração política explicam a criação dos estados ao longo do tempo.

Objetivos

- Conhecer os princípios organizativos do Estado-nação brasileiro e a dinâmica do seu funcionamento
- Analisar as tensões do chamado pacto federativo

Conteúdos

- Federalismo
- Organização política do Estado

Anos

Ensino Médio

Tempo estimado

De duas a três aulas

Materiais necessários

- Cópias do artigo "Federalismo: perigo à vista" (Veja, 2318, 24 de abril de 2013)  

Desenvolvimento
1º etapa
Comece perguntando aos estudantes o que é o Estado. Anote as respostas no quadro. Em seguida lembre a todos que a organização estatal é um dos constituintes das sociedades modernas. Essa estrutura, que convencionalmente chamamos de governo, orienta e arbitra diversos aspectos da vida social como educação, o estabelecimento e manutenção da ordem e a saúde, entre tantos outros.

Sua formação resultou de um longo, complexo e conflituoso processo histórico que ainda existe, já que as diferentes esferas internas (União, estados e municípios ) estão sempre em contato e, às vezes, entram em conflito.

2º etapa
Para que os estudantes conheçam como é composto o Estado, explique que ele está dividido em três dimensões interdependentes: Estado de direito; Estado político e Estado social. Elas dificilmente se desenvolvem equilibradamente - há variações históricas e geográficas. Mas, igualmente, as três dependem de uma organização espacial avançada para se realizarem e para que seus impactos sejam percebidos.

Neste momento, associe a dimensão do Estado, os níveis escalares de atuação (municipal, estadual e  federal) e os três poderes que, de certa maneira, espelham as dimensões do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário).

Por exemplo: o Estado brasileiro tem entre suas atribuições instalar um Estado de direito, que abranja o máximo possível das interações sociais em todo o território. Para que as pessoas sejam beneficiadas pela garantia das liberdades individuais é preciso, antes de tudo, a acessibilidade da justiça (do aparelho jurídico) em todos os recantos do país. Os direitos humanos precisam ser levados até as regiões mais distantes,  o que não é possível sem a livre circulação de informações. Na estrutura do Estado brasileiro há órgãos e mecanismos responsáveis pela concretização do Estado de direito. Mas, sem dúvida, é o Poder Judiciário que tem um papel de maior destaque. Alerte à turma  que, para realizar essa função a contento, ele deve estar livre de imposições religiosas e políticas.

Analise o Estado político com a mesma abordagem : conte que a vida política se estrutura com a ação do executivo e do legislativo. Para que exista o Estado político é preciso existir eleições reguladas e fiscalizadas pelo poder judiciário. O evento "eleições" é replicado nas três escalas territoriais (Federação, Estado e Municípios).

Neste momento, proponha à turma investigar como o Estado social se organiza associando  hierarquia territorial (níveis escalares) e os três poderes.

Vale destacar que o Estado Social exerce as funções diretamente ligadas à vida material da sociedade. A dimensão social engloba a economia, por isso investir na economia é investir no social. Ao separar essas duas dimensões revela-se uma perversidade, pois assim o social pode ter problemas mesmo quando a economia vai bem. Essa dimensão do Estado é responsável pela infra-também pelo oferecimento de serviços fundamentais como educação, saúde e previdência.

3º etapa

As formas de administrar as três dimensões do Estado (Direito, Política e Social) passa pelos três poderes e pela hierarquia territorial. Conte aos alunos que isso pode se dar de duas formas: centralizadamente e descentralizadamente.

A primeira é feita a partir da Federação (o nível máximo da hierarquia territorial). A segunda é quando os poderes são distribuídos para os níveis inferiores da hierarquia (governadores, prefeitos, assembleias legislativas, câmaras municipais, tribunais regionais etc).

Com essas duas possibilidades esclarecidas pode-se entender bem o que é Federalismo. Explique aos alunos que a distribuição de poderes e funções aos níveis escalares inferiores do território e da sociedade é a essência do federalismo. Por isso, se institucionalizou nos Estados modernos os entes federados, no caso do Brasil,  estados e municípios.

4º etapa
Promova um debate com os estudantes a partir da seguinte questão: a divisão da organização e das atribuições do Estado faz sentido ou só aumenta os gastos com o número de cargos políticos?

Incremente a discussão com outras questões, como: a organização da administração brasileira é estável ou percebe-se  um crescimento do número de entes federados? Por que há no interior do Estado do Pará, e no interior do Estado de Minas Gerais movimentos para criação de novos estados? Esses movimentos têm a ver com o federalismo?

5º etapa
Se os poderes e as responsabilidades estão distribuídos entre os entes federativos surgem várias questões: quais as melhores formas de distribuir essas funções? O que deve inevitavelmente ser atribuído a um ente federado e não a outro? De onde virão os recursos para cada um realizar suas funções? Cada ente federado deverá arrecadar seus próprios recursos?

Distribua cópias do artigo "Federalismo: perigo à vista" (Veja, 2318, 24 de abril de 2013) e conduza uma leitura coletiva. A leitura do texto do economista Maílson da Nóbrega, que foi Ministro da Fazenda (responsável pela administração econômica, no nível da Federal/União) dá para ter resposta a algumas dessas questões, em especial sobre quem arrecada os recursos. Deixe claro que nada é simples nessa área: parte do dinheiro que os Estados e municípios usam para exercer seus poderes e funções são arrecadados pela União e depois redistribuídos.

Quer dizer, por motivos econômicos e legais nem todos os entes federados têm a mesma capacidade de arrecadação, o que pode significar centralização de poder, algo que afeta a "pureza" do federalismo. Por outro lado, o fato de um município não ter capacidade arrecadadora pode ter motivos econômicos (fragilidade econômica), porém o município precisa de estrutura educacional e de saúde sem o qual ele não terá autonomia federativa. Aí se os outros níveis de escala superior (estado e União) ajudarem, isso vai expressar que o poder está centralizado, mas agindo para descentralizar-se.

Avaliação
Veja abaixo a sugestão de três atividades para avaliar a turma:

Atividade 1
A primeira é bem simples e visa exercitar as ideias chaves que percorreram a sequência didática. Distribua uma cópia para cada aluno da tabela abaixo. Se preferir, escreva no quadro. Peça que os adolescentes identifiquem, para cada uma das ações, qual o nível administrativo que deve atuar. O primeiro item já está preenchido:

 Tabela da atividade 3. Imagem: produção Nova Escola

Atividade 2

Explore um caso que dará bem a visão de funcionamento da nossa organização federativa: a questão da educação pública e gratuita. Peça que os alunos pesquisem como ela se organiza no país, segundo seus níveis próprios (Fundamental, Médio e Superior), quem a promove, administra e a sustenta. Para tal, você pode sugerir algumas fontes: a Constituição brasileira no item que corresponde à educação; a Lei 9394, relativa a educação e O FUNDEB.

Atividade 3
Outra sugestão é pedir aos estudantes que pesquisem os recursos gerados pela extração do petróleo no Brasil. Como se distribui isso entre os entes federados? Os estados produtores recebem o mesmo que os outros ou a distribuição é equalitária?

Se resolver aplicar uma das duas últimas atividades, não se esqueça de separar um tempo da aula seguinte para que a turma compartilhe os resultados das pesquisas.
Fernanda Padovesi Fonseca
Professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP)

Os blocos supranacionais vão acabar?

Um dos principais produtos da globalização, os blocos econômicos foram colocados em xeque pela crise econômica iniciada em 2008. Discuta com os alunos o nascimento dessas organizações, suas características e os problemas enfrentados

 Mapas com marcação dos diferentes blocos econômicos . Imagem: Wikimedia commons
Objetivos
- Blocos supranacionais e suas características

Conteúdos
- A conjuntura geopolítica internacional que levou à formação dos blocos supranacionais.
- As características dos principais blocos econômicos: as semelhanças e diferenças entre eles.

Tempo estimado
- Três aulas

Anos
- Ensino Médio

Material necessário

- Cópia da entrevista "Não temos medo de competir" (Veja 2320 , 08 de maio de 2013)
- Recortes de jornais e revistas com reportagens sobre os blocos
- Cartolina, cola e canetinhas coloridas.

Introdução
Vivemos um período de integração entre os países sem precedentes na história. A globalização das trocas econômicas, políticas e culturais, consolidou um cenário de crescente interdependência entre os países. A formação de blocos econômicos, a construção de acordos aduaneiros e de livre comércio e a estruturação de instâncias supranacionais são as formas culminantes deste processo.

O ponto de partida que culminou na criação dos blocos se dá com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945. Após o término da Segunda Grande Guerra Mundial (1939 - 1945), a noção de direito produzida pela Carta das Nações Unidas, que estabelece a entidade como orgão máximo de discussão do direito internacional e entendimento entre as nações, inaugurou uma nova escala da produção jurídica: a escala global.

Desde a sua fundação, a ONU se dedica a garantir a cooperação entre os países e a segurança mundial, mas também, a partir de outras organizações, desenvolve projetos na área da Educação, saúde, combate à pobreza e ações humanitárias.

Use a entrevista do presidente mexicano Enrique Peña Nieto a Veja para analisar e comentar a situação atual dos diferentes blocos - a crise vivida pela União Europeia (UE) e a paralisação das negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), por exemplo - sua queda em importância no cenário mundial e o esforço dos governos na construção acordos bilaterais em áreas estratégicas com nações parceiras.

Desenvolvimento
1ª etapa
Para entender o que são os blocos econômicos supranacionais e refletir sobre sua atualidade na dinâmica política e econômica internacional, inicie o tema com uma aula expositiva. Para isso, verifique que conhecimento os alunos já tem sobre o tema e anote as respostas no quadro.

Explique aos estudantes a importância do nascimento da ONU para a configuração de uma nova estrutura entre os países, permitindo o surgimento de um sistema global. Os blocos econômicos regionais nascem no contexto histórico da globalização, iniciado no pós-guerra. Com o entendimento da necessidade de cooperação mútua para o desenvolvimento de suas economias, alguns países buscaram fortalecer a integração com vizinhos visando adquirir maior capacidade de negociação em relações comerciais com outras nações.

No âmbito dos Estados nacionais, os blocos econômicos são um tipo de resposta dos países a esse imperativo da competitividade, agora em escala global. Ajude-os a compreender que, até meados do século 20, as relações entre os países não era assim integrada.

Ofereça aos estudantes essa perspectiva histórica como forma didática de reconhecerem que os blocos econômicos não poderiam ter surgido no passado, mas são manifestações dos tempos da globalização. Privilegiar esse ângulo histórico de análise nos permite problematizar as questões do presente, sem se deixar levar pelo fato de que se há crise no interior de um bloco econômico, não quer dizer que estão todos em crise ou que se trata de uma forma organizacional que tende a desaparecer.

Reflita com os estudantes a configuração interna dos blocos econômicos e pontue as diferenças entre eles. Enquanto alguns chegam a constituir instâncias próprias de governo, com leis comuns a todo o bloco, como a União Europeia, a grande maioria das instituições deste tipo, como o Mercosul, o Nafta, a Apec, restringem-se a acordos para intensificar as relações econômicas entre seus membros.

Estimule o debate entre os estudantes sobre a situação atual dos principais blocos, buscando identificar os problemas enfrentados e mostrar como situações ocorridas em algum ponto do globo podem repercutir em todo o mundo de diferentes formas.

2ª etapa
Convide os alunos a pesquisar diariamente, durante uma semana, em jornais, revistas e sites, a maior quantidade possível de notícias cujos acontecimentos estejam de alguma forma relacionados aos blocos supranacionais. Ao final da semana, cada aluno deve selecionar as duas reportagens que consideraram mais interessantes.

Faça uma breve revisão do conceito de bloco econômico com os alunos e peça que eles, em grupos de três, decidam com quais notícias fazer um painel. Instigue os alunos a decidirem fazendo-lhes perguntas sobre o tema. Por exemplo: Quais notícias foram importantes nessa semana com relação aos blocos econômicos? Como apareceram os blocos econômicos nos temas noticiados? Que características definem os blocos econômicos e podemos observá-las nas notícias? Podemos dizer que algum bloco está em crise? Peça para os alunos produzirem cartazes com as notícias selecionadas, que devem ficar fixados nas paredes da sala ou do corredor até a aula seguinte.

3ª etapa
Agora que os alunos já tiveram contato com o assunto por meio da explicação do professor, do acompanhamento do noticiário sobre o tema e da curadoria em cartazes das reportagens mais relevantes, peça para os alunos formarem uma roda e promova um debate com a turma. Deixe todos apresentarem suas ideias e opiniões e estimule os mais calados a participar.

Instigue os alunos a dar opiniões sobre temas como a crise da União Européia, a relação desigual entre o México e Estados Unidos, a polêmica entrada Venezuela como integrante do Mercosul, ou a diversidade cultural dos países membros da Apec. Tente fazê-los perceber os diferentes argumentos, muitas vezes antagônicos, para cada questão e mostre que não há resposta pronta para essas questões. O importante é o debate de ideias para o aperfeiçoamento de governos e instituições.

Ao final do debate, verifique a assimilação de alguns pontos da aprendizagem. O ponto do entendimento final é que a globalização tornou todos os países do mundo interdependentes. Um problema que ocorra em qualquer ponto do globo gera repercussões, com diferentes níveis de intensidade, em todos os países.

Avaliação
Observe o interesse e participação dos alunos nas atividades e discussões em sala de aula e por meio do painel feito em grupo. Avalie se os estudantes compreenderam os princípios que sustentam a definição de blocos econômicos e apreenderam alguns debates atuais sobre o tema.
Virna Carvalho
Geógrafa, mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo, e autora de livros didáticos

Por que o Nordeste ainda sofre com a seca?


Discuta as consequências históricas da ocupação humana na região, os impasses que ainda persistem e as soluções encontradas em outras regiões do mundo


Sertão nordestino Imagem: Wikimedia Commons
Objetivo
- Analisar criticamente situações-problema representativas da aceleração do processo de humanização do meio natural

Conteúdos
- Biomas terrestres
- Semiárido brasileiro
- Tecnologia e intervenções no meio natural

Ano
2º ano do Ensino Médio

Tempo estimado
Quatro aulas

Material necessário
- Cópias da reportagem "O Brasil não começou com o PT" (Veja 2321 , 15 de maio de 2013)
- Mapa "Biomas Terrestres no Mundo",
-Mapa "Biomas Brasileiros",
 - Cópias da reportagem "Semiárido pode se tornar deserto no ano de 2100, revela estudo",
 - Cópias da reportagem "Enquanto Seca assola o Nordeste, 51 % da sua água é desperdiçada",
- Cópias da reoprtagem "Israel mostra novas técnicas em irrigação com melhor aproveitamento da água",
- Cópias da reportagem "O problema do semiárido não é a seca, é a cerca",
- Cartolina
- Canetas hidrográficas coloridas
- Recortes de jornais e revista que abordem o tema

Desenvolvimento
1ª etapa
Forme grupos de alunos e pergunte aos alunos quais são as consequências históricas do problema da seca no Nordeste que se repetem nos dias atuais a partir da leitura do trecho de reportagem a seguir:

   Não há legiões de famintos vagando pelo sertão nem imagens de crianças desnutridas pelas estradas, mas, dependendo da região, a seca é, de fato, a mais severa em noventa anos. […] A dor é a mesma, a consequência econômica é a mesma, a diferença é que hoje há uma rede de proteção social maior, que minimiza o drama da fome. Infelizmente, não há como zerar o problema. Existe essa rede de proteção social, mas uma eficiente rede de proteção econômica ainda precisa ser consolidada. No último ano, aumentou muito a migração de nordestinos para o Sul e o Sudeste, um fenômeno que praticamente não era mais visto.

Os alunos, em grupo, devem levantar hipóteses, registrá-las e, oralmente, socializá-las com os demais grupos. A escolha em começar pelo levantamento das consequências atuais da seca tem um caráter de diagnóstico para que, ao final da sequência didática, os alunos reflitam sobre as causas deste problema. É importante estimular a reflexão dos alunos para o debate de socialização, por isso formule questões como: Quais são os problemas atuais que a condição prolongada da seca causa aos moradores desta região do Nordeste? Quais soluções encontradas pelos moradores acarretam outras questões preocupantes para o país? Baseando-se no trecho da reportagem e em conhecimentos prévios, guie os alunos para o entendimento de que "a população mais vulnerável" é afetada pela fome e pelo aumento da miserabilidade. Isso agrava algumas questões, como o abandono de terras, a migração e o aumento do inchaço urbano. Registre a síntese da socialização no quadro e incentive os alunos a tomarem notas sobre o que foi debatido.

2ª etapa
Pergunte aos alunos o que eles entendem por "bioma". Anote suas definições no quadro e reforce explicações sobre este conceito. Os alunos devem entender que bioma "é um conjunto de diferentes ecossistemas: são as comunidades biológicas, organismos da fauna e da flora, como florestas tropicais úmidas, tundras, desertos árticos, florestas pluviais, subtropicais ou temperadas, biomas aquáticos, como recifes de coral, zonas oceânicas, praias e dunas. […] Um conjunto de ecossistemas constitui um bioma, e o conjunto de todos os biomas da terra constitui a biosfera da Terra". Para saber mais sobre a origem do conceito ou havendo a necessidade de aprofundamento, recomende que os alunos realizem uma pesquisa. Reforce que a busca deve ser feita em fontes confiáveis (institutos de pesquisa, livros, jornais ou revistas e seus respectivos endereços na internet).

Apresente o mapa-múndi "Biomas Mundiais" e peça para os alunos localizarem o bioma dos desertos. Atente para a região do Oriente Médio, inserindo explicações que ampliem os conhecimentos deles sobre a localização de Israel e as características climáticas deste país. Apresente o mapa "Biomas Brasileiros" e localize, com os alunos, o bioma da caatinga. Atente para a região do semiárido brasileiro (veja mais aqui), inserindo explicações que ampliem os conhecimentos dos alunos sobre as condições socioeconômicas das populações vulneráveis que habitam essa região (verificar fontes no final da página).
Discuta com os alunos as características climáticas e de vegetação que assemelham as condições físicas destas regiões (Oriente Médio e semiárido brasileiro). É importante que os alunos se apropriem de conceitos climáticos como a baixa pluviosidade e o déficit hídrico, comuns em regiões áridas ou semiáridas.

Registre no quadro a síntese desta discussão e oriente os alunos a tomarem notas sobre os assuntos tratados. Em seguida, questione a turma sobre quais são os fatores humanos autantes nestas regiões, com enfoque no semiárido brasileiro. Pergunte, por exemplo, "como as ações antrópicas (ações do humana sobre o ambiente) provocam, aceleram ou induzem a desertificação das regiões semiáridas" e promova uma discussão com os alunos. Sugestão da leitura da reportagem "Semiárido pode se tornar deserto no ano de 2100, revela estudo".

É fundamental os alunos perceberem que o "processo de desertificação é consequência de fatores humanos e climáticos". Para tanto, recorra às afirmações no texto sobre "a rigorosa escassez de chuvas dos últimos 50 anos, que atinge os municípios do semiárido" e sobre "as práticas inadequadas adotadas pelo homem que provocam a desertificação, como o desmatamento, a extração excessiva de produtos florestais, as queimadas, a sobrecarga animal, o uso intensivo do solo e seu manejo inadequado".

Comente com os alunos as experiências encontradas para solucionar ou amenizar os problemas sociais decorrentes da seca em regiões áridas no mundo. Recorra à reportagem anterior sobre o exemplo de Israel, onde "há produção agrícola o ano todo". Reforce informações de que este país se localiza numa região (Oriente Médio) em que as condições físicas se assemelham ao semiárido brasileiro (retome, se necessário, explicações sobre a localização dos biomas terrestres mundiais e dos biomas brasileiros).
Por fim, solicite e oriente uma pesquisa sobre as soluções encontradas por Israel. Oriente os alunos a buscarem as informações em fontes confiáveis e marque sua entrega para a aula subsequente.

É aconselhável, neste caso, que a pesquisa seja solicitada aos alunos como sugestão e não obrigatoriedade, de forma a incentivá-los à prática de estudos complementares como investimento na ampliação dos seus próprios conhecimentos. Eles podem fazê-la individualmente ou em grupos. Explique, entretanto, que os alunos que a fizerem deverão socializá-la em sala de aula e, para tanto, terão um "bônus" no processo de avaliação.


3ª etapa

Inicie a aula com a socialização da pesquisa dos alunos. Em seguida, discuta com os alunos as seguintes questões:

A) a "eficiência do dinheiro, público e privado, aplicado em pesquisas sobre os processos de humanização do meio natural que almejem a melhoria das condições de vida das pessoas". Retome trechos da reportagem anterior com as informações sobre as verbas que o governo brasileiro tem destinado combate à seca e o incentivo às iniciativas de uso sustentável dos recursos naturais. Reforce que mesmo assim os problemas decorrentes deste processo (como as proporções de pobreza e de indigência, a migração familiar forçada em busca de atividades de maior produtividade etc.) têm se agravado.

B) "a importância do emprego adequado da tecnologia em intervenções no meio natural que favoreçam a melhoria do lugar e a fixação dos moradores locais". Compare a situação do semiárido brasileiro com a das áreas áridas de Israel para mostrar diferentes modelos de ocupação humana no ambiente natural. Para tanto, recorra a trechos dos textos "Enquanto Seca assola o Nordeste, 51 % da sua água é desperdiçada" e "Israel mostra novas técnicas em irrigação com melhor aproveitamento da água".

Registre no quadro a síntese desta discussão e oriente os alunos a tomar notas.

4ª etapa
Releia com os alunos a afirmação: "Infelizmente, não há como zerar o problema. Existe essa rede de proteção social, mas uma eficiente rede de proteção econômica ainda precisa ser consolidada", extraída da reportagem apresentada de Veja.
Em seguida, forme grupos de alunos e apresente o seguinte desafio:

A) De que forma o Brasil pode consolidar rede uma rede eficiente de proteção econômica baseando-se nos exemplos de Israel para solucionar o problema da seca ou amenizar as drásticas consequências sociais decorrentes deste processo?

B) Considere a expressão "o problema do semiárido não é a seca, é a cerca" para responder a questão acima.

C) Discutam as questões em grupo e peça que os alunos façam um cartaz com sugestões para lidar com os problemas apresentados. Em seguida, os grupos devem apresentar oralmente o cartaz aos demais grupos, explicando o porquê das sugestões. É importante que os alunos relacionem os estudos e discussões feitos nas etapas anteriores e levantem sugestões aplicáveis e sustentáveis à realidade do semiárido brasileiro (tecnologias, reciclagem de água da chuva, dessanilização da água do mar etc.). Após a interação dos grupos, faça intervenções sobre a viabilidade das sugestões, discutindo eventuais equívocos e inserindo explicações que reforcem os conhecimentos trabalhados com os alunos. Registre no quadro a síntese desta discussão e oriente os alunos a tomar notas.


Avaliação
Como esta sequencia didática propõe muitas atividades de reflexão, discussão e socialização, avalie a participação individual e do grupo nestas dinâmicas. É importante, entretanto, acompanhar os processos de discussão nos grupos, pois alguns alunos podem ter participação expressiva durante estas discussões e mostrarem-se tímidos em exposições orais ou na socialização. Considere a iniciativa dos alunos que fizeram a pesquisa solicitada. Por fim, acompanhe o processo de desenvolvimento do desafio apresentado na 4ª etapa e considere o resultado da produção e explicação dos cartazes como um dos produtos desta avaliação. É fundamental explicitar aos alunos, no início da 1ª etapa, que esta será a maneira de avaliar o desenvolvimento.

Silas martins Junqueira
Geógrafo, professor da rede pública, escritor de livros didáticos e formador de professores

Qualidades do Professor

Cecília Meireles 
 

Se há uma criatura que tenha necessidade de formar e manter constantemente firme uma personalidade segura e complexa, essa é o professor.

Destinado a pôr-se em contato com a infância e a adolescência, nas suas mais várias e incoerentes modalidades, tendo de compreender as inquietações da criança e do jovem, para bem os orientar e satisfazer sua vida, deve ser também um contínuo aperfeiçoamento, uma concentração permanente de energias que sirvam de base e assegurem a sua possibilidade, variando sobre si mesmo, chegar a apreender cada fenômeno circunstante, conciliando todos os desacordos aparentes, todas as variações humanas nessa visão total indispensável aos educadores.

É, certamente, uma grande obra chegar a consolidar-se numa personalidade assim. Ser ao mesmo tempo um resultado — como todos somos — da época, do meio, da família, com características próprias, enérgicas, pessoais, e poder ser o que é cada aluno, descer à sua alma, feita de mil complexidades, também, para se poder pôr em contato com ela, e estimular-lhe o poder vital e a capacidade de evolução.

E ter o coração para se emocionar diante de cada temperamento.

E ter imaginação para sugerir.

E ter conhecimentos para enriquecer os caminhos transitados.

E saber ir e vir em redor desse mistério que existe em cada criatura, fornecendo-lhe cores luminosas para se definir, vibratilidades ardentes para se manifestar, força profunda para se erguer até o máximo, sem vacilações nem perigos. Saber ser poeta para inspirar. Quando a mocidade procura um rumo para a sua vida, leva consigo, no mais íntimo do peito, um exemplo guardado, que lhe serve de ideal.

Quantas vezes, entre esse ideal e o professor, se abrem enormes precipícios, de onde se originam os mais tristes desenganos e as dúvidas mais dolorosas!

Como seria admirável se o professor pudesse ser tão perfeito que constituísse, ele mesmo, o exemplo amado de seus alunos!

E, depois de ter vivido diante dos seus olhos, dirigindo uma classe, pudesse morar para sempre na sua vida, orientando-a e fortalecendo-a com a inesgotável fecundidade da sua recordação.

Texto de Cecília Meireles, extraído do livro Crônicas de Educação 3
 

domingo, 19 de maio de 2013

O que é a crítica de arte?

Use exemplos de artistas que contestaram o que é verdadeiramente arte para explicar o trabalho do crítico  à turma
Observação de obra de arte: Jonas Tucci

Objetivos
  • Compreender que a arte é um sistema simbólico ligado às experiências e representações individuais e sociais
  • Distinguir os profissionais envolvidos no sistema da arte
  • Conseguir opinar  sobre as obras artísticas

Conteúdos
  • O artista e o mercado de arte
  • História da arte
  • Arte brasileira
Anos
Ensino Médio

Tempo estimado
4 aulas

Material necessário

  •  Imagens das obras dos artistas: Marcel Duchamp, Claude Monet, Edgar Degas, Renoir, Paul Cézanne, Matisse, Picasso, Kirchner, Giacomo Balla, Braque, Goya ("Caprichos"), William Hogarth , Richard Hamilton, Andy Warhol- as reproduções podem ser encontradas na internet.
  • Projetor de imagens

Desenvolvimento
Aula 1 - O papel do crítico de arte
A reportagem Axé Ilaiá publicada na revista Bravo! é um bom ponto de partida para discutir um tema que chama a atenção dos teóricos e historiadores da arte: a postura crítica do artista perante o mercado. O texto cita Marina Murta e Nathalia Gonçalves, criadoras do personagem "Mãe Duchampa", uma fictícia feiticeira do mercado de arte, que promete emplacar o trabalho de quem está começando e tirar artistas fora do circuito do anonimato.  A iniciativa se apropria de meios de comunicação simples e tradicionais como o "lambe-lambe" e é, ao mesmo tempo, atual, crítico e bem humorado.

À primeira vista os cartazes colados pelas ruas do Rio de Janeiro podem parecer uma grande brincadeira, mas um pouco mais de atenção permite notar que a ação supera a sátira. Além de resgatar o nome de um dos ícones da arte moderna - o artista Marcel Duchamp - , explicita a complexidade do mundo da arte, que envolve o artista e outros profissionais. Como o galerista (que apresenta e negocia o trabalho), o crítico (que analisa, contextualiza e comenta a obra), o curador (que estuda a obra, o contexto e a coleção e cria uma linha de pensamento que definirá quais obras farão parte de uma exposição) e o educador/mediador (que conversa com o público para ajudá-lo a conhecer melhor o artista selecionado).

A turma deve entender que a escolha de uma obra para exposição vai bem além do "feio ou bonito" ou "gostei ou não gostei", que costumamos fazer quando vamos ao museu. A crítica feita pelo público, em geral, lida com a fruição, ou seja, com aquilo que sentimos diante de um quadro e que pode variar de pessoa para pessoa, conforme o repertório de cada um. Isso não tem necessariamente uma relação com a história da sociedade ou da arte. A crítica do espectador comum é "recheada" de conteúdos afetivos e, portanto, é muito pessoal. Enquanto que o especialista busca um "meio termo" entre a razão e a sensibilidade e procura ser objetivo sem perder a ligação com o delicado universo artístico.

Embora ainda não tivessem esse nome, os primeiros críticos surgiram na Grécia Antiga, com a sistematização dos estudos sobre estética da arte. Muitos dos princípios que nortearam esses primeiros pensadores da arte foram resgatados na Europa Moderna (Renascimento) e somados a outros princípios da Idade Média, sobretudo religiosos.
Com a organização do mercado de arte ao longo dos séculos, a atividade do crítico tornou-se cada vez mais especializada. No início ele se ocupava principalmente em orientar o mercado, mas no século 19 sua opinião começou a circular na imprensa e seu trabalho passou a contribuir para orientar o público a consumir Arte. A indústria cultural e todas as transformações que vem ocorrendo no universo das manifestações culturais a partir do século 20 deram ao crítico e ao curador uma posição de referência. Por isso contamos hoje com cursos de História da Arte, de Crítica e Curadoria, voltados à formação de profissionais que se preparam para desempenhar atividades nesta área.

Em seu trabalho, Marina Murta e Nathalia Gonçalves evocam o nome de um dos mais polêmicos artistas do século XX, que participou do despontar da Arte Moderna e de todas as revoluções dela decorrentes: Marcel Duchamp. Essa é uma boa oportunidade para mostrar aos alunos um pouco das transformações do início do século 20. Naquela época, as obras de impressionistas como Claude Monet, Edgar Degas, Renoir, Paul Cézanne e outros (que haviam sido criticados no século 19), constituíam a arte "aceita" pela sociedade. Enquanto isso, Matisse, Picasso, Kirchner e Giacomo Balla começavam a apontar os caminhos de vanguardas como o Fauvismo, o Expressionismo, o Cubismo, o Futurismo e o próprio Dadaismo (do qual fez parte Duchamp), que "chacoalharam" o gosto, a tradição e o mercado.

A postura crítica dos artistas sobre seu tempo não é uma novidade. Conte que o artista espanhol Francisco Goya y Lucientes (1746 - 1826) ao realizar a série de gravuras Caprichos explicitou seu descontentamento em relação ao despotismo na Espanha do século 18. Outro exemplo é o inglês William Hogarth (1697 - 1764) que censurava os padrões morais da sociedade por meio de pinturas e gravuras satíricas.

O próprio Duchamp, citado por Marina Murta e Nathalia Gonçalves, questionou a apreciação e avaliação do objeto artístico quando em 1917, utilizando o pseudônimo de R. Mutt, enviou um mictório de louça, que chamou de "A fonte", para um salão de arte. A obra não foi aceita pelo júri do salão, mas com isso Duchamp inaugurou o ready-made. As produções feitas com esta inspiração ressignificavam objetos industriais para esclarecer que a obra de arte envolve o conceito e não somente a execução.

Certamente a atitude de Duchamp foi polêmica e, assim como Monet (no século 19) Matisse e Braque (já no século 20), fez com que os críticos e alguns segmentos do mercado começassem a repensar o que poderia ser considerado arte.Outros nomes começaram a integrar as revoluções que transformariam a Arte no século 20. No final da década de 1950 o artista inglês Richard Hamilton se apropriaria não de objetos industrializados, mas da sua imagem e de muitas outras divulgadas pela mídia impressa, criando colagens que discutiam a realidade do pós-guerra, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos. Foi o surgimento da Pop Art. Na mesma linha, o artista Andy Warhol se apropriou das imagens exploradas pela mídia tornando-se um dos mais importantes nomes da arte do século 20.

Aproveite essa conversa para mostrar imagens das obras dos artistas citados, pois isso em muito poderá contribuir para a compreensão das obras.
Para finalizar, proponha aos alunos que levem exemplos de música, fotos, vídeos ou textos brasileiros que revelem uma postura crítica. Procure indicar períodos de maior transgressão, como a transição do Império para a República (no século 19), o Modernismo nos anos 1920, a Pop Art e a Tropicália nos anos 1960 e 1970.

Aula 2 - A postura crítica na arte brasileira
Retome o conteúdo da aula anterior: os profissionais do mercado e a crítica de arte. Explique aos alunos que chegou o momento de resgatar os resultados dos levantamentos feitos por eles. Acrescente às pesquisas da turma exemplos que você considera relevante e incie uma discussão para descobrir se a arte brasileira é questionadora e discute criticamente a realidade.
Para este debate, é importante saber que no século 19 caricaturistas já ironizavam a postura do 2° Império e, posteriormente, a dos próprios republicanos. E no século 20 os modernistas refletiam sobre a necessidade de buscar uma identidade artística nacional. Já nos anos 1960, motivados pelas muitas revoluções da arte internacional, artistas e músicos brasileiros tropicalistas mostraram seu olhar sobre o regime militar, que criava uma série de restrições às possibilidades de expressão. A Pop Art brasileira criticou, de modo muitas vezes bem-humorado e poético, a realidade do momento, como mostram as obras de artistas como Claudio Tozzi, Wesley Duke Lee, Nelson Leirner e outros.

Agora, que tal criar uma obra em que os próprios alunos exponham a sua visão a respeito da nossa realidade? Lembre que a "obra-ação" criada por Marina Murta e Nathalia Gonçalves foi motivada pela atitude do artista Marcel Duchamp, que questionou o próprio futuro da arte. Esta postura "inspirou" a dupla a realizar um trabalho que desperta discussões sobre a Arte contemporânea e o mercado.

Divida os alunos em grupos e distribua nomes de artistas considerados polêmicos para sua época. Exemplos: - Anita Malfatti: em 1917 realizou uma exposição que chamou a atenção dos seus contemporâneos;
- Flavio de Carvalho: realizou um pioneiro happening nos anos 1950 ao caminhar de saia no meio do centro comercial de São Paulo;
- Nelson Leirner: enviou um porco empalhado para um salão de arte em plena ditadura militar.


Para que o trabalho se torne mais rico é interessante que os alunos estudem um pouco a vida e obra do artista, bem como o momento em que suas obras foram mais "provocativas".
Entregue uma proposta de tema a cada grupo - se preferir use os temas transversais da LDB: ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde, orientação sexual e temas locais - . A ideia é que, assim como artistas dos períodos estudados discutiram sua época com meios alternativos, cada grupo realize uma obra reinterpretando o tema sorteado. Proponha que os alunos registrem a elaboração da obra em um "diário de bordo", com as ideias sobre o projeto em desenvolvimento e também recortes de jornais e revistas e artigos extraídos da internet.

Aula 3 - Apresentação dos trabalhos
Não se esqueça de estabelecer uma ordem de apresentação. O tempo deve ser suficiente para os grupos apresentarem a contribuição do artista sorteado, o tema do trabalho, o diário de bordo e a obra.

Proponha também um exercício de crítica dos trabalhos. Elabore fichas de análise e distribua para a sala. Peça que todos considerem os mesmos critérios: pesquisa realizada, domínio do tema estudado, "diário de bordo", criatividade ao selecionar as técnicas e os meios expressivos. Deixe que os alunos discutam se desejam acrescentar outro critério ao documento.
É importante lembrar que o trabalho do crítico deve ser objetivo e consciente. Portanto, ao realizar essa análise os grupos devem justificar suas opiniões. Desse modo a turma estará desenvolvendo seu potencial criativo e refletindo sobre a produção, além de poder conhecer um pouco mais sobre história da arte no Brasil.

Avaliação
Os alunos deverão compreender que a arte está inserida em um contexto e que para classificar a qualidade das obras existem profissionais especializados que não tiram suas ideias "do bolso", mas de estudos frequentes. Observe se os alunos manifestam estes conhecimentos no diário de bordo e na análise da produção dos colegas.
Maria José Spiteri
Professora da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) e da Universidade São Judas Tadeu